O tempo que a gente não entende.

Existe aquela frase de efeito que diz algo assim: “Quando você dá um passo para frente, consequentemente algumas coisas ficam pra trás”. Sempre que leio essa frase, me faz lembrar o por do sol e imaginar os seus dois lados. O lado onde ele está se pondo e o da noite vindo. A noite talvez  fosse só um pedaço que ele está deixando pra trás. E onde está se pondo é o que pode vir. Ou talvez fosse o contrário? Eu também me pergunto se esses pedaços também tem como ser um pouco da gente.

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por We Heart It

Tenho 19 anos, vivo planejando meu futuro e amando escrever cada pedacinho do meu presente. Mas que consequentemente não me deixam parar de pensar no meu passado. Já cheguei a pensar se, nesses passos que dou, um pouco de mim sempre fica pra trás. Isso só me ocorreu mesmo quando eu saí do banho, me olhei no espelho e me ocorreu que alguns traços já não são como eu me lembro nas fotografias guardadas. Antes, meus olhos aparentavam ser curiosos, hoje, com um pouco de maquiagem borrada, consigo reparar levemente como eu aparento ter um pouco de medo. Não sei do que exatamente, talvez de alguma surpresa. Não que surpresa fossem boas; coisas inesperadas me encantam. É que talvez eu esteja um pouco farta de esperar por algo maior e me decepcionar. Forrest Gump faz parecer maravilhoso quando fala da sua caixinha cheia de bombom’s, mas queria mesmo ver sua reação quando encontrasse um chocolate amargo com amendoim dentro. Provavelmente ficaria irritado, mas seria legal se ele me entendesse.

Antes eu era mais feliz com qualquer coisa, qualquer acaso, qualquer palavra. Hoje tenho uma obsessão por surpreender o outro. Fico pensando nas próximas palavras que solto, nas próximas ações. Às vezes nem precisam ser momentos que ainda vão acontecer. Às vezes acontece de ficar pensando no que já aconteceu e fazer aquela pergunta: “Por que não fiz ou disse isso ao invés daquilo?”. Essa obsessão por ter momentos perfeitos para que as pessoas tivessem um outro olhar sobre a gente, ou que tivéssemos agido melhor pra que não fôssemos encarar algumas consequências que hoje somos obrigados a lidar. Um dos momentos que tenho pra contar é quando tive a minha despedida de Florianópolis. Morei lá por quase 6 anos e tive amigos maravilhosos que juntaram e cantaram algumas músicas que eu gostava bastante. E nessa despedidas, lembro que a gente jogou bastante Guitar Hero e eu sempre tive um gosto muito grande de cantar. Um certo momento, me pediram pra cantar e eu lembro, inclusive, qual era a música. Quando comecei, eu não gostei de mostrar como era a minha voz para todo mundo, porque eu não achava ela bonita e o meu showzinho de pessoa envergonhada também foi nada bonito. Eu podia surpreender a todos ali, eu podia dar um showzinho mais bacana, eu podia muito bem cantar e fazer os meus amigos curtirem. Eu queria voltar lá e mostrar que minha voz já não é daquele jeito (também, depois de muita prática…) mas que também eu não canto nada profissional. Pessoas entendidas de músicas dizem que ela é boa, mas só precisa de alguns consertos. Só por isso canto só para os íntimos. Ou canto no meu quarto, sempre imaginando surpreender aquelas mesmas pessoas. Mas voltando ao foco, eu gostaria de voltar lá, cantar com meus amigos e mostrar que “olha, eu melhorei”. O engraçado é que ninguém se importa com isso. Foi um momento que, ah, nem devem lembrar como eu lembro! Eu devia pensar hoje que era só uma festa bacana, não era pra ser levada nada a sério no karaokê do jogo. E eu com essa obsessão de surpreender, de que mostrar que sei, que sou boa, que posso fazer certo dessa vez.

Mas hoje, com meus 19 anos, com meus olhos apresentando maquiagens borradas, tudo que quero é deixar de lá o lado oposto do por do sol e começar a presenciar mais o nascer do mesmo. O sol vai e vem no próximo número do calendário e nem sempre ele garante a nós bons dias, porém ele também não se preocupa em nos surpreender. Simplesmente acontece. Só depende da gente.  Só depende do próximo sol pro dia nascer, para assim, fazermos tudo. Inclusive as coisas darem “certo”.