Meu irmão

Meu irmão

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by We Heart It

Ele nasceu quando eu só tinha 4 anos e pouco. Queria uma menina, mas veio um irmãzinho. Logo ali, eu o adorei. Mimei. Peguei no colo quando podia e quando tinha força. Apresentei os desenhos mais legais. E ele, com o tempo foi me apresentando os mais legais pra ele. Os brinquedos. Os melhores passatempo… E ali, eu não me dei conta o quanto eu ia aprender com esse carinha. Aprendi que tinha zagueiro e goleiro. Aprendi algumas regras. Pedi ajuda dele em trabalhos em educação física e eu tirava 10 – créditos àquele pequeno que já sabia muita coisa. Lembro uma vez que eu tinha que aprender a defender bola na educação física. Meu irmão me ensinou.

E aqui, vamos imaginar que os ponteiros do relógio passam lentamente e núvens atravessam o céu de forma extremamente rápida. Pause. Meu irmão tem seus quase 16 anos. Concilia entre estudos e futebol. Entre gols memoráveis e gessos no braço.

Meu irmão está crescendo. O chinelo dele já não era um número menor que o meu. Percebi que tinha camisetas e calças na cadeira. Chuteiras e bolas num canto. E cadernos de fisica e química abertos em cima da escrivaninha dele.

Todos os dias o vejo na escola porque trabalho lá. Vejo com os seus amigos, combinando para a próxima festa no fim de semana… O vejo abraçar bonitas meninas enquanto conversa com seus “brothers”. E quando me vê passando pra lá e pra cá, sempre dá um oi. Quando está com as meninas, cumprimenta, mas com outro olhar. E eu conheço esse olhar. É o olhar de timidez. O olhar de “não conta pra mãe, tá?”.

Meu irmão tem seus quase 16 anos, ainda sonha em ter alguns jogos daoras. Namora algumas vitrines de chuteiras, vai em algumas partidas de futebol com o pai, sonha em ser jogador de futebol. E quando eu pergunto alguma coisa sobre o assunto, ele tem toda paciência para explicar. Ele entende muito bem. Mas o melhor de tudo isso é ver que ele tem um brilho nos olhos ao ver a possibilidade grande de seu desejo se tornar realidade. Sim, ele vê. Ele acredita.

Seu negócio não é matemática, não é lingua portuguesa, não é biologia. É esportes. É regras. É competição. É bater no peito e gritar gol.

Meu irmão tem seus quase 16 anos, mas puxou da família de querer tanto, sonhar tanto e ir atrás. Tanto. Para que no fim do dia, mesmo cansado, valha a pena. E só sei que é assim, quando vou pra faculdade, ele está lá, jogando futebol com vizinho ou até mesmo amigos do colégio. E só sei que é assim, quando é uma partida super importante pra jogar, ele chorar pra participar. É ele insistir com o uniforme vestido e com a bola na mão. É ter força. É assistir todas as partidas de futebol. Até mesmo de outros times. É paixão.

Meu irmão tem seus quase 16 anos, e tem essa vontade de estar em meio de campo desde seus 5. Desde quando o pai deu sua primeira bola e ensinou a chutar direitinho. Desde quando o passeio entre família era ir em parquinho, mas já procurando uma quadra. “Eu posso morar em qualquer lugar. Desde que tenha quadra”. E essa frase ele falou com seu apenas 10 anos. Isso porque nos mudávamos demais.

Ele aguenta qualquer coisa. É só mais um obstáculo. Só mais um pra chegar aonde quer. Já tirou seu primeiro zero, já reprovou de ano, já teve que sair de clubes de esporte para subir a nota. Lidou com julgamentos de terceiros, de seus times adversários fazendo piadinha, com o seu sentimento de fracasso passageiro. Mas ele continua. Quem sonha, sonhador é.

É ali que aprendi mais uma coisa com ele. Existem situações, mas só conseguimos superá-las lidando com todas elas. E sendo forte. Muito forte.

Eu chego da faculdade, vejo ele dormindo, com a chuteira largada do lado da cama. Vejo livros, vejo uniforme, vejo bola e a tela do computador ligado no FIFA. Meu irmão tem seus 16 anos. Uma vida inteira pela frente. Muito time pra competir. Muita coisa pra lidar. Mas o que importa mesmo?

“O placar, Luiza. O placar.”